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Entrevista dada por Gisela Cañamero a Rachel Bonino
1 Setembro 2006
Revista Língua Portuguesa, Brasil

O projecto "Camões é um poeta rap" pode ser definido como peça de teatro ou como show?
 
É uma Performance poética com suporte multimédia. A performer diz e canta os poemas, comunica e interage com o público, e é apoiada por um registo sonoro e musical e por um registo vídeo.
 
Como surgiu a idéia? Já havia adaptado a obra de algum outro grande poeta anteriormente para o rap?
 
Como surgem as ideias? Quando´surge o insight - o ahá! - já se trilharam mil caminhos - paralelos, perpendiculares, sobrepostos em diferente níveis.
 
E, um dia - geralmente em clima de pausa na pesquisa criadora - talvez no duche, talvez passeando descontraidamente - as associações mais díspares acontecem.
 
Mas claro, o acto criativo é produto da flexibilização de pensamento - que rompe com padrões de rotina - e da divergência na associação de ideias. E isso treina-se.
 
A vontade de mostrar a modernidade de autores ditos "clássicos" já me impelira, anteriormente, a abordar  Gil Vicente em rap - em O Auto dos Agravados.
 
Para que público é destinado? Que instituições patrocinam o projecto?
 
É destinado para o público jovem e adulto. Acontece os mais velhos ficarem emocionados com a força da palavra - fruto de uma amarga mas reflectida experiência de vida - do Princípe dos Poetas. Ou, simplesmente, passarem a gostar dos ritmos do rap e do hip-hop.
 
E acontece os mais jovens ficarem sensíveis à  arte que transparece no domínio ritmico, fonético e na força dos sentidos que são dados às palavras.
 
Mas também as crianças são muito sensíveis aos jogos possíveis com o discurso rappado ou cantado. Já trabalhei com crianças Os Lusíadas em rap - e exigiam-me sempre mais, mais estrofes para dizer, para cantar, para dançar.
 
As instituições que tornam o Projecto possível  são: o Instituto das Artes - Ministério da Cultura - através do financiamento à actividade criativa regular da arte pública - e o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas - através da digressão que tem promovido, pela compra de espectáculos, na rede das Bibliotecas Públicas.
 
Quando aconteceu a primeira apresentação? Quantos espetácculos já foram apresentados e em quantas cidades?
 
As primeiras apresentações - experimentais, de modo a poder aperfeiçoar a estrutura do espectáculo e a comunicação com o público - foram feitas há dois anos. Seguiu-se um interregno. Em 2005, foram feitas diversas apresentações em Portugal e no Brasil - Rio, Cabo Frio. Em 2006... (por favor, consultar o mapa de digressão)
 
Como está estruturada a apresentação? São citados trechos literais das obras do poeta? Quais trechos?
 
A apresentação teve em conta o tentar dar uma visão de Camões, o homem - para que se possa entender com mais clareza a grandiosidade da sua obra. 
 
Um homem sofredor com as incompreensões, mediocridade e mesquinhez da sociedade portuguesa do séc XVI. Um homem apaixonado. Um homem que foi feito prisioneiro e que sofreu a deportação. Um homem que sofreu tragédias físicas - uma vista trespassada, lutas, um naufrágio -  tragédias emocionais - a morte prematura de Dinamene - e sociais - não esqueçamos que acabou os seus dias em grande pobreza.
 
E que, apesar de tudo, não desiste. Apesar de toda a sua tragédia pessoal, Camões consegue transformar a sua dor e a sua mágoa em energias criadoras e transformadoras.
 
É por isso que Camões deve ser apresentado como um exemplo aos jovens de hoje - prenhes tantas vezes de situações facilitadoras - e que, ainda assim, desistem ao primeiro obstáculo.
 
Para dar esta ideia - de Camões, o homem - seleccionei os poemas que são citados em
http://www.arte-publica.net/venda/camoes_2006_divulga_web.pdf 
 
Dos 15 sonetos, 14 são ditos integralmente. E temos as duas estrofes do início de Os Lusíadas - que são as mais conhecidas pela maior parte do público (foram obrigados a lê-las na escola).
 
Como foi feito o trabalho de adaptação dos sonetos para as letras de rap? Você mesma fez a adaptação textual? Pode me mandar um exemplo de um trecho original e de um trecho adaptado?
 
Não há qualquer adaptação. A letra dos poemas simplesmente "encaixa" nos ritmos rap.
 
Como é a reacção do público à apresentação?
 
No Brasil foi fantástica - as pessoas muito emocionadas - e exteriorizando naturalmente.
 
Em Portugal as pessoas são mais contidas, por natureza - mas tenho tido muitas surpresas no final do espectáculo, quando  insistem em vir agradecer-me - mas o quê?, pergunto eu... - abraçar-me, felicitar-me - ou simplesmente, incentivarem-me a continuar este trilho. Não me esquecerei que, junto a um caloroso aperto de mãos, em Portalegre, um espectador me chamou de La Passionária da Cultura!

Qual a intenção do projecto?
 
Tirar a grande poesia de Camões do pó, descer o homem do pedestal das pedras de comemoração.
 
Fazer circular a Palavra do Poeta - porque ela é intemporal, porque é uma lição viva de Língua Portuguesa - além  da importância que são os exemplos dos percursos singulares pela resistência -  através das suas convicções e de uma alicerçada força mental - à mediocridade e mediania. Uma pessoa faz a diferença.

Acredita que depois de assistir o espectáculo, o público terá interesse em buscar saber mais sobre a obra de Camões?
 
Não todo o público, certamente. Não existe uma massa informe de público. Existem públicos. Pessoas. E tenho a certeza que sim - porque já várias pessoas - sobretudo as muito jovens ( com 10, 12, 14 anos de idade) mo vieram confidenciar, após o espectáculo.